Se você atua com lesão medular, provavelmente já foi questionado nos últimos dias sobre a polilaminina.
Pacientes, familiares, colegas de equipe — todos querendo saber se estamos, finalmente, diante de uma terapia capaz de mudar o prognóstico de um trauma raquimedular. A repercussão nas redes sociais foi intensa. Mas, no consultório, no centro cirúrgico e na discussão multidisciplinar, a pergunta é outra: o que realmente sabemos até agora?
A polilaminina é uma substância desenvolvida em laboratório a partir da laminina, uma proteína da matriz extracelular (proteína estrutural que organiza tecidos) com papel central no desenvolvimento embrionário do sistema nervoso. A ideia por trás da pesquisa é biologicamente elegante: quando ocorre uma lesão medular aguda, há ruptura dos axônios (prolongamentos dos neurônios responsáveis por conduzir impulsos nervosos) e formação de uma cicatriz glial (barreira celular que dificulta regeneração). O ambiente local torna-se hostil à reconexão neural. A proposta da polilaminina é funcionar como um arcabouço bioativo (estrutura de suporte biológico), criando uma espécie de microambiente favorável para o crescimento axonal e, potencialmente, para a retomada parcial da comunicação entre cérebro e corpo.
Em termos práticos, ela é aplicada diretamente na área da lesão durante a cirurgia, com a intenção de servir como uma “ponte microscópica” que oriente o crescimento das fibras nervosas. Em modelos experimentais e em um pequeno grupo de pacientes com lesão medular aguda, foram observados sinais de recuperação motora. É esse dado que impulsionou a comoção pública.
Mas aqui precisamos falar como profissionais.
Os resultados divulgados até o momento vêm de um estudo preliminar com apenas oito pacientes. O trabalho ainda não passou por revisão por pares (processo de validação científica por especialistas independentes), não contou com grupo controle estruturado e envolve uma amostra pequena e heterogênea. Em outras palavras: não temos, ainda, evidência clínica robusta que permita afirmar causalidade entre a aplicação da substância e a recuperação observada.
Você sabe, pela prática diária, que a lesão medular aguda não é um evento uniforme. A gravidade neurológica inicial, o nível acometido, o tempo até descompressão cirúrgica, a estabilidade hemodinâmica e a reabilitação precoce influenciam diretamente o desfecho. A literatura já demonstra que até 30% dos pacientes podem apresentar algum grau de recuperação espontânea, dependendo dessas variáveis e da classificação neurológica (como a escala ASIA – American Spinal Injury Association). Sem um desenho metodológico comparativo adequado, separar evolução natural de possível efeito terapêutico torna-se inviável.
Outro ponto importante: a substância ainda não é um medicamento aprovado. Para alcançar esse status, precisará percorrer todas as etapas do desenvolvimento clínico — fase 1 (avaliação de segurança), fase 2 (análise de dose e eficácia preliminar) e fase 3 (confirmação de eficácia e monitoramento ampliado de eventos adversos) — antes de eventual registro sanitário. A autorização regulatória para início da fase 1 foi concedida, mas os ensaios clínicos formais ainda estão em fase de organização ética e operacional.
Paralelamente, a forte mobilização pública levou pacientes a buscarem acesso por meio de decisões judiciais, dentro do chamado uso compassivo (autorização excepcional para produto ainda em investigação). Essas aplicações não integram um protocolo clínico estruturado, o que significa ausência de padronização metodológica, acompanhamento comparativo sistemático e controle estatístico adequado. Para nós, que lidamos com desfechos funcionais e prognósticos delicados, isso acende um alerta ético e científico: como manejar expectativas quando a evidência ainda está em construção?
É importante também deixar claro que, até o momento, não há evidências científicas de eficácia da polilaminina em lesão medular crônica. Após a fase aguda, a formação da cicatriz glial cria um ambiente ainda mais inibitório à regeneração. Qualquer extrapolação para esse grupo de pacientes é, neste estágio, especulativa.
Do ponto de vista industrial, o desenvolvimento segue com investimento significativo e proteção de propriedade intelectual relacionada ao processo de formulação. A empresa envolvida sustenta que os dados acadêmicos já apontam segurança e eficácia preliminar, restando cumprir etapas regulatórias. Ainda assim, no campo científico, o que consolida uma terapia não é apenas convicção, mas reprodutibilidade, análise estatística consistente e publicação validada.
Se você trabalha com trauma raquimedular, sabe o peso emocional que acompanha cada caso. Sabe também como a esperança pode ser terapêutica — mas também pode ser devastadora quando mal calibrada. A regeneração medular é um dos maiores desafios da neurociência clínica. Toda linha de pesquisa séria merece atenção. A polilaminina pode, sim, representar um avanço importante. Mas, hoje, ela ainda ocupa o espaço da promessa científica, não da prática consolidada.
Talvez estejamos diante do início de uma mudança relevante. Talvez este seja mais um capítulo no longo caminho das tentativas de promover regeneração neural. A diferença entre expectativa e evidência será definida pelos ensaios clínicos que virão.
Até lá, o nosso papel permanece o mesmo: acompanhar criticamente, informar com responsabilidade e manter o equilíbrio entre entusiasmo científico e rigor metodológico. Porque, no fim, é isso que sustenta a boa prática.
FONTE: Polilaminina nos trends: entenda o que a substância pode fazer e o que ainda não se sabe, G1 – Saúde, 20 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/02/20/polilaminina-nos-trends-entenda-o-que-a-substancia-pode-fazer-e-o-que-ainda-nao-se-sabe.ghtml (acessado em 20 fev. 2026).